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C A P I T U L O 0001: A NOITE QUE MUDOU TUDO Nem mesmo as trevas serão escuras para ti, a noite brilhará como o dia Salmo 139:12 Naquela noite em Black River, o arrepio ainda corria pela minha pele como sempre corre quando me lembro. Como sempre vai correr. Black River é uma cidade nem esquecida, nem renomada e não porque seja insignificante, mas porque há lugares que preferem não ser encontrados por estranhos. O rio que lhe dá nome corre escuro e quieto entre margens de pedra basáltica, e os mais velhos dizem que sempre foi assim, mesmo antes de a cidade existir, mesmo antes de haver alguém para nomear o que via. A água não é escura por causa do fundo: é escura por conta própria, como se guardasse algo que a luz prefere não tocar. As ruas eram vazias do jeito que ruas de cidade pequena ficam quando algo errado se aproxima, não um vazio de silêncio, mas de fuga, como se até as pedras soubessem se afastar. As casas velhas ficavam ali com sua fachada de pintura gasta e reboco aparente e suas janelas frontais fechadas, guardando memórias que ninguém mais quer contar em voz alta. Tinha cinco anos então. Agora tenho dezesseis, e sei o suficiente para entender o que não sabia naquela noite de tempestade. Deixei-me cair na cama de molas gastas e fiquei olhando para o teto onde a tinta antiga havia descascado em formas que pareciam mapas de lugares que ninguém jamais quis visitar, nem mesmo Owen. As vigas cruzavam o teto como costelas velhas, e entre elas a escuridão se acumulava espessa, do tipo que não some quando os olhos se acostumam. A única luz vinha de uma vela quase no fim na mesinha ao lado, um toco que projetava sombras longas e instáveis nas paredes, onde manchas de umidade desenhavam silhuetas que eu preferia não interpretar. O quarto cheirava a mofo e a tempo parado por décadas, afinal ninguém se interessava nesta casa. Uma cômoda de gavetas tortas ficava encostada na parede da direita, com o espelho rachado no canto superior, trincado há anos, segundo a poeira acumulada na moldura. Sobre ela, nada além de uma tigela de água que eu havia trazido e que agora estava rosada. Na parede oposta, uma janela de guilhotina com vidro fino demais para o frio lá fora, as cortinas amareladas se mexendo levemente sem que houvesse vento suficiente para justificá-las. A espada estava no chão onde eu a havia largado, não pousado com cuidado, largado, porque os braços já não tinham força para mais do que isso. A lâmina ainda carregava marcas escuras que não eram ferrugem. O coldre de couro estava jogado sobre a única cadeira do quarto, a correia partida em dois, e minha jaqueta sobre ele tinha um corte à altura do ombro esquerdo que explicava parte da dor que pulsava cada vez que eu respirava fundo. Respirei fundo assim mesmo. As tábuas do assoalho rangiam com o peso de nada, a casa simplesmente falava sozinha naquela hora, como casas velhas fazem, acomodando o frio, contraindo a madeira, lembrando quem mora nelas que tudo envelhece. Eu sabia como a casa se sentia. Fechei os olhos. Não para dormir, pois eu sabia que o sono não viria, não ainda, não com o coração ainda batendo naquele ritmo acelerado e inútil de quem acabou de correr de algo que não cansa. Fechei os olhos só para não ver o teto por mais alguns segundos. Para não pensar. Não adiantou muito. Aprendi da pior forma que mexer no tempo é uma idiotice que cobra preço em carne e alma. Não é metáfora. As consequências se instalam no corpo antes de chegarem à mente, um peso que você carrega sem entender de onde veio, até o dia em que entende e já é tarde demais para devolver. Digo isso porque há perigos que rastejam pelas ruas, pacientes e famintos, sempre prontos para a invasão.

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